Agosto 19, 2010

pedras d’água’10

imagens da instalação pública

Julho 19, 2010

Sintonia entre corpo e som é ponto fulcral do encontro

Propor uma instalação audiocoreografica é apresentar um modo de organização que contemple simultaneamente matérias de movimento e som. A conjugação destes dois componentes pretende evidenciar diferentes formas de perceber o espaço – mais interior ou exteriormente.

Quando o corpo se move de acordo com o que ouve, um projecto comunicativo enuncia-se tornando o espectador cúmplice. Outrora quando o som e o corpo seguem trilhas díspares é na relação com o espaço que a atenção do espectador se pode focar. Nesses percursos entre diferentes focos de atenção é possível que a apreciação dessa obra considere a autonomia de cada espectador para escolher em qual das camadas quer acompanhar a peça e como pode transitar entre estas possibilidades.

A experiência de interacção do corpo e do som olha para onde se posicionam mutuamente, quando é que se devolvem um ao outro, uma na outra, e qual a sintonia disso é o ponto fulcral deste encontro, esta procura da consciência de um corpo afectando e afectado, em todas as suas fontes e sentidos.

O conceito de site specific abre a porta a uma contemplação passível de ser aprofundada.

É nesta observação que se encontra o desafio de sonorizar este espaço – seria o conceito correcto a amplificação, uma vez que o espaço sonorizado o é. A amplificação transforma-se então numa insistência sonora, que intencionada residirá em si o tal organismo urbano tendencialmente configurado pelo real.

Julho 17, 2010

Público é desafiado com propostas articuláveis e não opressivas

A presença de vários estados corporais, explicitando diferentes níveis de interacção com o ambiente, possibilita a criação de um design performativo em que diversas possibilidades de comunicação sejam instaladas através de variados elementos sonoros – configurando o corpo para disposições mais extrovertidas ou introspectas conforme se calibra com o ambiente a ouvi-lo, a deslocar-se através dele, ou a observá-lo como se o lê-se.

Seja no corpo a fazer-se relevo quando se inscreve em escadas, paredes, chão, corrimãos… Seja na alteração do estado de atenção que a relação com a sonoridade no ambiente provoca na atitude de ocupação do espaço… Interessa propor ao público que passeie também sua atenção por outras instâncias de movimentos, nem sempre coreográficos mas também aleatórios. Esta proposta estrutura-se na atitude corporal que se instaura de modo o acolhimento ou a neutralização de estímulos produzam hipóteses de leituras das relações habilitadas entre corpo e espaço, borrando estes territórios e desobjectificando/ desierarquizado estas perspectivas.

Desta evidenciada interacção entre corpo e espaço é que emergem as ignições sensório-motoras que configuram a proposta de trabalho de corpo que pavimenta esta criação: no percurso de estruturação de cada gesto – desde o escaneamento na propriocepção até a dimensão do visível – buscam-se propostas de comunicação que possam fomentar um diálogo ético-estético entre a instalação e a organicidade do espaço.

O movimento a percorrer trajectos de interacção na observação do corpo desde a sua particularidade singular até a dilatação contextual dos seus estados de presença, tornando capaz de relacionar esferas mais amplas de referenciação que habilitem a criação de comunicações objectivas no espaço, suportadas pelo design que se conjuga na adjunção de corpo e ambiente.

A proposta é que as relações apresentadas dialoguem comunicativamente entre a sugestão e a indicação, deixando ao público espaço de escolha, o que demanda que a criação se oriente de propostas articuláveis e não opressivas.

O Espaço (ii) (i)

Julho 15, 2010

Formas evidenciam percursos de movimento

Na interacção com o espaço surgem e insistem padrões que configuram hábitos coreográficos. É através da selecção destes momentos que a composição se torna cristalina e avança para sua espacialização.

A proposta de investigação pondera a transitoriedade das relações hierárquicas que se estabelecem entre corpo, som e espaço, propondo a criação de uma textura corporal co-dependente de aparatos de suporte (estruturas de apoio, corrimãos, paredes, muros, degraus, estímulos sonoros, etc.) presentes no espaço. O corpo cria-se com o espaço onde portanto as formas evidenciam percursos de movimento, borrando assim as noções de sujeito e objecto, de uso e propriedade, de acção e reacção.

O corpo assume assim uma presença de poro, actuando mais nas vazões que nos preenchimentos – de modo a atentar para as possibilidades de abertura desse espaço advindas de sua própria consistência. No relacionar da presença humana no espaço arquitectónico – urbano, público – ponderam-se modos dessa ocupação ser uma atitude implicada, afectável e criadora de vínculos ao invés de uma imposição opressiva da presença desatenta a pertinência das composições possíveis desde a especificidade do lugar.

A escolha em trabalhar-se numa escadaria corrobora com a evidenciação desse considerar. Ao relacionar o corpo com um espaço que no seu próprio design evidencia a organicidade da criação de hierarquias – especialmente nas relações polares de alto e baixo, de ascensão e descida, de entre outros pares de atitude espacial/corporal – e propomos considerar onde é que estas disparidades se sustentam dinamicamente por tensão de princípios comuns ao invés de estarem estabilizadas. De que modo esta assimetria nos desequilíbrios se constrói a cada contacto.

O Espaço (i)

Julho 12, 2010

Nenhuma criação pode configurar-se em termos de nada

CO é um trabalho que se orienta por directrizes de implicação no que concerne a arte em relação à existência, à organicidade da vida urbana, à configuração do real. Nenhuma expressão estética pode fazer do seu âmbito reflexivo um aparte de como a vida é, ou de como a sociedade funciona.

Nisso ousamos aproximar-nos das hipóteses que o professor Andrew Hewitt (2005) levanta acerca da implicação estética na organização social a sustentar que «as acções não são representações que remetem a algo, mas são elas próprias ideologia. São medias de uma ordem social que trazem em seu cerne o entendimento de que um processo de aproximação entre estética e os acordos sociais que estão em um funcionamento, opera produzindo códigos estilísticos que vão mediar as comunicações neste ambiente».

Nenhuma criação pode configurar-se em termos de nada, pois a arte é também a sociedade a funcionar e exige este engajamento onde o discurso encontra a prática numa esfera de comunicação pública. CO é uma criação a performar a realidade que integra agenciando a produção do real em que actua. É mesmo intenso trabalho de ser co.

As questões que movimentam CO (iii) (ii) (i)

Julho 10, 2010

Investigação relaciona arte e quotidiano ético, estético e político

CO é um acontecimento artístico transdisciplinar em que as materialidades emergem do estado de estar com e que tem no ambiente da rua sua conjuração potenciada, pois na prática da vida pública o tempo de reflectir tem de ser imediato, tem de ser acção. Teoria e prática são um corpo integrado na presença do habitante; e habitar é implicação total no entorno, é mesmo estar num elo da composição. Nem feito, nem feitor. Há-de ser o que borra. O intermitente. O transeunte – ocupador do espaço a pô-lo sempre em moção. Ser loop em variação.

CO tem portanto, na sua proposta de criação, a premissa de realizar um trabalho artístico em espaço público durante tempo estendido para investigar, na emergência dos materiais expressivos, novos modos de relacionar a criação em arte e o quotidiano da cidade a partir de vínculos éticos, políticos e estéticos.

É essencial perceber como as diferentes relações que a comunicação humana estabelece no contacto com uma obra de arte modifica a configuração da mesma no modo de criar-se. Neste sentido este projecto parte da investigação artística acerca das confluências nos estados de apreciação que perpassam a leitura, a escuta, a observação e o próprio movimento em relação aos modos de composição destas matérias na conformação de um evento artístico transdisciplinar em contexto público.

As questões que movimentam CO (ii) (i)

Julho 8, 2010

Criação é co-autora do seu próprio processo

Quando se trabalha em profundidade num espaço, deixando-se perceber os elementos que emergem do encontro com o sítio, a matéria de criação adensa as suas condições de ressonar e, num encontro atento, já é possível perceber que há universais em qualquer sítio que reverberam o humano neste lugar independente de onde ele seja/esteja.

Em CO as matérias criativas emergem de um estado expressivo de companhia: de estar com um espaço específico e os contextos que lá existem para poder perceber que texturas e composições pulsam lugar e quais delas são hábitos e relações partilháveis e comunicáveis de modos múltiplos.

O que se está a ponderar nessa proposta de criação site specific é outra consideração acerca das relações entre corpo, objecto e espaço na conformação de um produto artístico deslocável, sempre actualizável. Ainda no princípio do pensamento atrevemo-nos a estabelecer uma ligação entre aquilo que fomos aprendendo com Filomena Molder (1999), «o que caracteriza o texto é a sua traduzibilidade», e a presente consideração de especificidade em relação ao lugar, às pessoas, que revelaria a sua própria recontextualização geográfica e humana.

Nisto é-nos essencial tornar visível de que modo a matéria artística advinde de um encontro contextual específico adquire perspectivas autónomas e auto-organizativas que facultem a própria criação ser co-autora do seu processo e ter mobilidade de se rearranjar de modo coerente conforme a coesão e pertinência das suas propostas.

As questões que movimentam CO (i)

Junho 6, 2010

As Donas da Achada (II)

4

outro dia eu sentava no pé da escada e lá de cima o avô abriu a porta e saiu correndo o Miguel
que quando viu o pequeno palhaço pregado na ponta do meu guarda-chuva
se antecipou para a escadaria e o avô até deixou cair as chaves…
em milissegundos eu pude ver que o Miguel ainda é alguém que começou a pouco a andar, e disparei escada acima em uma velocidade de hiato
e quando vi já estava de mãos dadas com o puto, levando-o pelos degraus até o palhaço do chapéu de chuva…
com a mãozinha do bebé na minha, oscilando meu peso um bocadinho para acompanhar o oscilar dele
tive um flash de memoria,
de dançar bem pequenina com os meus avós e minha irmã…
baloiços de um lado ao outro… era assim só
um principio das coisas que é mesmo incoreografável…

5

sai porta afora a senhorinha, parece mesmo pequenina. grande é sua bengala.
corro a interpela-la

- queres ajuda
- não, não é preciso não. tenho aqui esta (move a bengala) e vou bem só
- mas posso dar-lhe o braço se quiseres
- não é preciso não….
…. mas olha, gosto muito do que fazes. olho sempre da janela e gosto muito
- ah sim?!!
- sim sim… mas o que é? trabalhas aonde?
- aqui na baixa, num centro de estudo em artes, o cem…
- ahhh, mas logo se vê que é arte
- pois, eu trabalho com dança
- ahhh, mas logo se vê que é dança… naqueles dois que ficam ali em cima também… se vê nas pernas e nos braços… e o equilíbrio… o equilíbrio é de quem dança
- pois
- às vezes estou a ver-te e não dás por isso, e eu deixo-me estar contigo que até me distraio… e estás tão concentrada que nem piscas
- ah sério?
- sim… acho muito bonito, isso aí que você faz…
- não quer mesmo ajuda
- ora, tenho 88 anos mas ainda tenho forças para apanhar um saco de pão…

6

Estou a trabalhar com a Sara e saí à porta Dona Maria. Comenta algo com os olhos e faz sinal de que não dirá nada.
A Dona Irene está ali em cima em seu terraço a estender roupas. E Dona Maria cá debaixo diz-lhe

- então não viste ontem o que andaram aí a fazer, que beleza
- não vi nada o que foi
- ah mas não viste? estavam ali a cantar e a dançar uma coisa mais linda, eu já andava de roupa de dormir mas a Paulinha veio chamar-me e eu mudei de roupa e fui… ainda bem, ainda bem
- mas se calhar eu já dormia
- mas foi cedo, se calhar estás surda
- ah isso que não… e essa menina hoje também aí anda… tem idade para ser minha neta
- antes tua do que minha, que damo-nos muito bem eu e minha Paulinha
- ah mas a idade podia ser de qualquer uma das duas
- então vá, vá, vá… deixa-a trabalhar e vamos a nossa vida…

Junho 2, 2010

escritos enquanto dançavas

- qual é a oscilação entre ti e o lugar?
quando é que é o corpo, quando é que é o lugar, quando é que é a ausência, o som, ou o desconhecido.´

- a hierarquia vai-se se eu te trouxer o lugar errado com o som certo

- a memória está lá, do raspar na parede, de roçar. inda não é ai o lugar, mas tu já estás lá

Abril 4, 2010

trabalho de corpo

Na concepção de Co é claro um interesse pelo estudo da vertical, desde a configuração do próprio espaço (que para além da verticaldiade da escadaria, contempla também a sinuosidade das evoluções por espirais) até às relações que o próprio corpo configura em gesto…

Destas relações com a verticalidade alguns materiais persistem – talvez mapas ou relações… Em comum estes diagramas tecem percursos apreciativos das sensações de gravidade e anti-gravidade… Onde é que o vector que as orienta é mesmo o mesmo?

Estas observações evidenciam organicamente a interacção de corpo e espaço, não há hipótese de dissociar estas apreciações. E disso emergem ignições sensório-motoras que configuram a proposta de trabalho de corpo que pavimenta esta criação: no percurso de estruturação de cada gesto – desde o escaneamento na propriocepção até a dimensão do visível – buscam-se propostas de comunicação que possam fomentar um diálogo ético-estético entre a instalação e a organicidade do espaço.

O movimento a percorrer trajectos de interacção na observação do corpo desde sua particularidade singular até a dilatação contextual dos seus estados de presença, tornando capaz de relacionar esferas mais amplas de referenciação que habilitem a criação de comunicações objectivas no espaço, suportadas pelo design que se conjuga na adjunção de corpo e ambiente.

A proposta é que as relações apresentadas dialoguem comunicativamente entre a sugestão e a indicação, deixando ao público espaço de escolha, o que demanda que a criação oriente-se de propostas articuláveis e não opressivas.

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